DIA 20 – SEXTA-FEIRA
4ª SEMANA DA QUARESMA
(roxo – ofício do dia)
Por vosso nome, salvai-me, Senhor; e dai-me a vossa justiça! Ó meu Deus, atendei a minha prece e escutai as palavras que eu digo! (Sl 53,3s)
A presença do justo incomoda o coração dos ímpios, cuja reação é a violência imediata. Neste itinerário quaresmal, disponhamo-nos a viver em conformidade com a justiça do Senhor, mesmo diante das perseguições.
Primeira Leitura: Sabedoria 2,1.12-22
Leitura do livro da Sabedoria – 1Dizem entre si os ímpios, em seus falsos raciocínios: 12“Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina. 13Ele declara possuir o conhecimento de Deus e chama-se ‘filho de Deus’. 14Tornou-se uma censura aos nossos pensamentos, e só o vê-lo nos é insuportável; 15sua vida é muito diferente da dos outros e seus caminhos são imutáveis. 16Somos comparados por ele a moeda falsa, e foge de nossos caminhos como de impurezas; proclama feliz a sorte final dos justos e gloria-se de ter a Deus por pai. 17Vejamos, pois, se é verdade o que ele diz e comprovemos o que vai acontecer com ele. 18Se, de fato, o justo é ‘filho de Deus’, Deus o defenderá e o livrará das mãos dos seus inimigos. 19Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência; 20vamos condená-lo a morte vergonhosa, porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”. 21Tais são os pensamentos dos ímpios, mas enganam-se; pois a malícia os torna cegos, 22não conhecem os segredos de Deus, não esperam recompensa para a santidade e não dão valor ao prêmio reservado às vidas puras. – Palavra do Senhor.
Salmo Responsorial: 33(34)
Do coração atribulado está perto o Senhor.
1. O Senhor volta a sua face contra os maus, / para da terra apagar sua lembrança. / Clamam os justos, e o Senhor bondoso escuta / e de todas as angústias os liberta. – R.
2. Do coração atribulado ele está perto / e conforta os de espírito abatido. / Muitos males se abatem sobre os justos, / mas o Senhor de todos eles os liberta. – R.
3. Mesmo os seus ossos ele os guarda e os protege, / e nenhum deles haverá de se quebrar. / Mas o Senhor liberta a vida dos seus servos, / e castigado não será quem nele espera. – R.
Evangelho: João 7,1-2.10.25-30
Glória a Cristo, imagem do Pai, / a plena verdade nos comunicai!
O homem não vive somente de pão, / mas de toda palavra da boca de Deus (Mt 4,4). – R.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João – Naquele tempo, 1Jesus andava percorrendo a Galileia. Evitava andar pela Judeia, porque os judeus procuravam matá-lo. 2Entretanto, aproximava-se a festa judaica das Tendas. 10Quando seus irmãos já tinham subido, então também ele subiu para a festa, não publicamente, mas sim como que às escondidas. 25Alguns habitantes de Jerusalém disseram então: “Não é este a quem procuram matar? 26Eis que fala em público e nada lhe dizem. Será que, na verdade, as autoridades reconheceram que ele é o Messias? 27Mas este nós sabemos donde é. O Cristo, quando vier, ninguém saberá donde ele é”. 28Em alta voz, Jesus ensinava no templo, dizendo: “Vós me conheceis e sabeis de onde sou; eu não vim por mim mesmo, mas o que me enviou é fidedigno. A esse, não o conheceis, 29mas eu o conheço, porque venho da parte dele, e ele foi quem me enviou”. 30Então, queriam prendê-lo, mas ninguém pôs a mão nele, porque ainda não tinha chegado a sua hora. – Palavra da salvação.
As palavras dos Papas
A primeira leitura é quase uma crônica (uma previsão) do que acontecerá com Jesus. (…) É uma profecia, precisamente, do que aconteceu. E os Judeus procuravam matá-lo, diz o Evangelho. Então, eles também procuravam prendê-lo – diz-nos o Evangelho – mas «ninguém lhe pôs a mão, porque não chegara a sua hora» (Jo 7, 30). Isto se chama perseguição.(…) E o que se faz no momento da perseguição? Só duas coisas podem ser feitas: não é possível discutir com essas pessoas porque elas têm as suas próprias ideias, ideias fixas, ideias que o diabo semeou no [seu] coração. Já ouvimos qual é o plano de ação delas. O que pode ser feito? O que fez Jesus: ficar em silêncio. (…) É o silêncio do justo diante da obstinação. E isto também é válido para – chamemos-lhes assim – as pequenas obstinações diárias (…) calemo-nos. Silêncio. Suportar e tolerar a dureza da tagarelice. (Papa Francisco, Homilia na Capela da Casa Santa Marta, 27 de março de 2020)
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Meditação
A Palavra que rompe a nossa surdez
No Evangelho de hoje, vemos uma grande polêmica a respeito da Pessoa de Jesus, como se todo o texto fosse um grande processo no qual diversas testemunhas aparecem para revelar quem Ele é. Na passagem de hoje, as pessoas de Jerusalém pensam que sabem de onde Jesus vem, dizendo: “Este, nós sabemos donde é. O Cristo, quando vier, ninguém saberá donde ele é” (Jo 7, 27).
Jesus, porém, responde de modo surpreendente: “Vós me conheceis e sabeis de onde sou; Eu não vim por mim mesmo, mas o que me enviou é fidedigno. A esse, não o conheceis, mas eu o conheço, porque venho da parte dele, e ele foi quem me enviou” (Jo 7, 28-29).
Aqui, tocamos no núcleo dramático da fé cristã: como podemos reconhecer quem é Jesus? Ora, a fé nasce quando Deus fala ao nosso coração, pronunciando a sua Palavra — e essa Palavra é o próprio Cristo — dentro da nossa alma. E é ali, no íntimo do coração humano, que Deus testemunha quem é o seu Filho.
No entanto, essa Palavra divina precisa ser realmente ouvida por nós, pois muitas vezes ela se apresenta de maneira suave e discreta. O problema é que o ser humano, tolo, vive tão distraído com o barulho e os prazeres do mundo que acaba não escutando essa voz interior que o chama para a Verdade. Por isso, o Evangelho nos diz que, em determinado momento, Jesus bradou em alta voz. O verbo usado no texto grego — ἔκραξεν (ékraxen) — indica exatamente isso: um grito, um forte clamor.
Essa imagem recorda uma passagem famosa das Confissões, de Santo Agostinho, quando ele diz: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei”. E depois acrescenta: “Vocasti et clamasti et rupisti surditatem meam” — “Tu me chamaste, gritaste e rompeste a minha surdez”.
De fato, Deus fala constantemente ao coração humano, e todos os seres humanos trazem dentro de si uma Palavra divina que os chama para a Verdade. No entanto, muitas vezes ela é ignorada por nós, que estupidamente deixamo-nos distrair por coisas pecaminosas que não nos levam ao caminho do Céu.
Entretanto, quando uma pessoa começa verdadeiramente a buscar a Verdade, aquela voz suave que habita no coração se torna um forte clamor, capaz de romper a sua surdez espiritual. Não porque seja um som mais alto, mas porque possui uma força divina que cura a alma e a abre para a fé.
O Evangelho de hoje, portanto, coloca-nos diante desta realidade: nós somos surdos, mas Cristo continua, sem cessar, a nos chamar — e até a bradar — para que o escutemos verdadeiramente.
Diante da polêmica do mundo contra Nosso Senhor, precisamos tomar uma posição, e isso só será possível se abrirmos o coração para ouvir a Palavra que Deus pronuncia dentro de nós. Dessa forma, se dermos o nosso “sim”, aquela voz suave irá se tornar um forte clamor, capaz de romper a nossa surdez e conduzir-nos a uma fé firme, sólida e cheia de amor a Deus.
Padre Paulo Ricardo
