DIA 6 – SEXTA-FEIRA
2ª SEMANA DA QUARESMA
(roxo – ofício do dia)
Senhor, eu ponho em vós minha esperança; que eu não fique envergonhado eternamente! Retirai-me desta rede traiçoeira, porque sois o meu refúgio protetor! (Sl 30,2.5).
A inveja marca a história humana com morte e violência, a ponto de o próprio semelhante ser feito escravo. Jesus, o Filho de Deus, crucificado por tramas injustas, vem libertar os oprimidos e fazer que todos sejam verdadeiros irmãos.
Primeira Leitura: Gênesis 37,3-4.12-13.17-28
Leitura do livro do Gênesis – 3Israel amava mais a José do que a todos os outros filhos, porque lhe tinha nascido na velhice. E por isso mandou fazer para ele uma túnica de mangas longas. 4Vendo os irmãos que o pai o amava mais do que a todos eles, odiavam-no e já não lhe podiam falar pacificamente. 12Ora, como os irmãos de José tinham ido apascentar o rebanho do pai em Siquém, 13disse Israel a José: “Teus irmãos devem estar com os rebanhos em Siquém. Vem, vou enviar-te a eles”. 17Partiu, pois, José atrás de seus irmãos e encontrou-os em Dotaim. 18Eles, porém, tendo-o visto ao longe, antes que se aproximasse, tramaram a sua morte. 19Disseram entre si: “Aí vem o sonhador! 20Vamos matá-lo e lançá-lo numa cisterna, depois diremos que um animal feroz o devorou. Assim veremos de que lhe servem os sonhos”. 21Rúben, porém, ouvindo isso, disse-lhes: 22“Não lhe tiremos a vida!” E acrescentou: “Não derrameis sangue, mas lançai-o naquela cisterna do deserto e não o toqueis com as vossas mãos”. Dizia isso porque queria livrá-lo das mãos deles e devolvê-lo ao pai. 23Assim que José chegou perto dos irmãos, estes despojaram-no da túnica de mangas longas, pegaram nele 24e lançaram-no numa cisterna que não tinha água. 25Depois, sentaram-se para comer. Levantando os olhos, avistaram uma caravana de ismaelitas que se aproximava, proveniente de Galaad. Os camelos iam carregados de especiarias, bálsamo e resina, que transportavam para o Egito. 26E Judá disse aos irmãos: “Que proveito teríamos em matar nosso irmão e ocultar o seu sangue? 27É melhor vendê-lo a esses ismaelitas e não manchar nossas mãos, pois ele é nosso irmão e nossa carne”. Concordaram os irmãos com o que dizia. 28Ao passarem os comerciantes madianitas, tiraram José da cisterna e, por vinte moedas de prata, o venderam aos ismaelitas; e estes o levaram para o Egito. – Palavra do Senhor.
Salmo Responsorial: 104(105)
Lembrai sempre as maravilhas do Senhor!
1. Mandou vir, então, a fome sobre a terra / e os privou de todo pão que os sustentava; / um homem enviara à sua frente, / José, que foi vendido como escravo. – R.
2. Apertaram os seus pés entre grilhões / e amarraram seu pescoço com correntes, / até que se cumprisse o que previra, / e a palavra do Senhor lhe deu razão. – R.
3. Ordenou, então, o rei que o libertassem, / o soberano das nações mandou soltá-lo; / fez dele o senhor de sua casa / e de todos os seus bens o despenseiro. – R.
Evangelho: Mateus 21,33-43.45-46
Jesus Cristo, sois bendito, / sois o Ungido de Deus Pai!
Deus o mundo tanto amou, / que lhe deu seu próprio Filho, / para que todo o que nele crer / encontre vida eterna (Jo 3,16). – R.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus – Naquele tempo, dirigindo-se Jesus aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, disse-lhes: 33“Escutai esta outra parábola: certo proprietário plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, fez nela um lagar para esmagar as uvas e construiu uma torre de guarda. Depois, arrendou-a a vinhateiros e viajou para o estrangeiro. 34Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos vinhateiros para receber seus frutos. 35Os vinhateiros, porém, agarraram os empregados, espancaram a um, mataram a outro e ao terceiro apedrejaram. 36O proprietário mandou de novo outros empregados, em maior número do que os primeiros. Mas eles os trataram da mesma forma. 37Finalmente, o proprietário enviou-lhes o seu filho, pensando: ‘Ao meu filho eles vão respeitar’. 38Os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança!’ 39Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram. 40Pois bem, quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?” 41Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo”. 42Então Jesus lhes disse: “Vós nunca lestes nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos’? 43Por isso eu vos digo, o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos”. 45Os sumos sacerdotes e fariseus ouviram as parábolas de Jesus e compreenderam que estava falando deles. 46Procuraram prendê-lo, mas ficaram com medo das multidões, pois elas consideravam Jesus um profeta. – Palavra da salvação.
As palavras dos Papas
Com esta parábola muito dura, Jesus coloca os seus interlocutores face à sua responsabilidade, e fá-lo com extrema clareza. Mas não pensemos que esta admoestação não se aplica apenas àqueles que rejeitaram Jesus naquele momento. É válido para todos os tempos, também para o nosso. Ainda hoje Deus espera os frutos da sua vinha daqueles que enviou para trabalhar nela. Todos nós. Em cada época, aqueles que têm autoridade, qualquer autoridade, também na Igreja, no povo de Deus, podem ser tentados a fazer os próprios interesses e não os de Deus. E Jesus diz que a verdadeira autoridade é quando se faz o serviço, é servir, e não explorar os outros. A vinha é do Senhor, não nossa. A autoridade é um serviço, e como tal deve ser exercida, para o bem de todos e para a difusão do Evangelho. (Papa Francisco, 4 de outubro de 2020)
*****************
Meditação
A eleição divina e a inveja dos não eleitos
No Evangelho de hoje, Jesus nos apresenta a parábola dos vinhateiros homicidas, que matam o herdeiro da vinha — uma clara referência à sua própria Paixão. A vinha representa o povo de Israel, e os vinhateiros, os chefes do povo. Ao final, Jesus conclui com a frase: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (Mt 21, 42).
Diante dessa parábola, aparece uma dinâmica profundamente contraditória: de um lado, a eleição divina — Deus escolhe quem será a pedra angular — e, de outro, a atitude invejosa daqueles que rejeitam o eleito e desejam tomar o seu lugar, dizendo como os vinhateiros: “Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança!” (Mt 21, 38).
Essa tensão percorre toda a história da salvação. Desde Abel, escolhido por Deus e morto pela inveja de Caim; passando por José do Egito, também eleito para salvar o seu povo e perseguido pelos próprios irmãos; até chegar a Jesus, o eleito por excelência, rejeitado e morto.
Mas essa realidade remonta ainda mais longe: à própria origem da revolta dos anjos. Segundo a Tradição, quando Deus revelou aos anjos o seu plano — de que deveriam servir o Verbo encarnado, Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem —, alguns não aceitaram essa eleição — não compreenderam como um ser humano, em sua fragilidade, poderia ocupar tal lugar. Foi a inveja que levou Satanás e seus anjos, então, à rebelião contra Deus.
Assim, a inveja diante da eleição divina torna-se um drama que atravessa toda a história. Deus distribui dons diferentes a cada pessoa, chamando cada um para uma missão particular. Aquilo que Ele concede a um, não concede a outro, e vice-versa, justamente para que todos dependam uns dos outros e formem um corpo harmonioso.
Como no corpo humano, nem todos os membros têm a mesma função: alguns veem, outros ouvem, outros trabalham com as mãos. Do mesmo modo, na Igreja, cada um recebe dons diversos para o bem comum. Jesus é a Cabeça desse Corpo, e sem Ele o Corpo perde sua identidade.
Por isso, devemos louvar a Deus por ter enviado ao mundo o seu Filho eleito, superior a nós em todas as virtudes, embora igual a nós na humanidade. Ele não é objeto de inveja, mas dom precioso para a nossa salvação.
O Evangelho nos adverte a não repetirmos o erro de Satanás, dos vinhateiros homicidas e dos chefes do povo que mataram Jesus por inveja. Invejar os dons dos outros é, de certo modo, rejeitar o próprio Cristo. Ao contrário, o caminho de Deus é reconhecer a eleição divina e alegrar-se com os dons concedidos aos irmãos, pois todos são chamados a colaborar para a edificação do mesmo Corpo místico.
Padre Paulo Ricardo
