
DIA 19 – SEGUNDA-FEIRA
29ª SEMANA DO TEMPO COMUM
(verde – ofício do dia)
Eu vos chamo, ó meu Deus, porque me ouvis, inclinai o vosso ouvido e escutai-me! Protegei-me qual dos olhos a pupila e abrigai-me à sombra de vossas asas (SI 16,6.8).
Imersos na incomparável riqueza da graça de Deus, somos libertados do apego aos prazeres terrenos e nos tornamos capazes de guardar o tesouro da salvação. Nesta sagrada liturgia, celebremos a misericórdia do Senhor e renovemos, com nossas atitudes, o desejo de pertencer somente a ele!
Primeira Leitura: Efésios 2,1-10
Leitura da carta de São Paulo aos Efésios – Irmãos, 1vós estáveis mortos por causa de vossas faltas e pecados, 2nos quais vivíeis outrora, quando seguíeis o deus deste mundo, o príncipe que reina entre o céu e a terra, o espírito que age agora entre os rebeldes. 3Nós éramos desse número, todos nós. Outrora nos abandonávamos às paixões da carne; satisfazíamos os seus desejos, seguíamos os seus caprichos e éramos, por natureza, como os demais, filhos da ira. 4Mas Deus é rico em misericórdia. Por causa do grande amor com que nos amou, 5quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo. É por graça que vós sois salvos! 6Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus em virtude de nossa união com Jesus Cristo. 7Assim, pela bondade que nos demonstrou em Jesus Cristo, Deus quis mostrar, através dos séculos futuros, a incomparável riqueza da sua graça. 8Com efeito, é pela graça que sois salvos, mediante a fé. E isso não vem de vós; é dom de Deus! 9Não vem das obras, para que ninguém se orgulhe. 10Pois é ele quem nos fez; nós fomos criados em Jesus Cristo para as obras boas, que Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos. – Palavra do Senhor.
Salmo Responsorial: 99(100)
O Senhor mesmo nos fez, e somos seus.
1. Aclamai o Senhor, ó terra inteira, † servi ao Senhor com alegria, / ide a ele, cantando jubilosos! – R.
2. Sabei que o Senhor, só ele, é Deus, † ele mesmo nos fez, e somos seus, / nós somos seu povo e seu rebanho. – R.
3. Entrai por suas portas dando graças † e em seus átrios com hinos de louvor, / dai-lhe graças, seu nome bendizei! – R.
4. Sim, é bom o Senhor e nosso Deus, † sua bondade perdura para sempre, / seu amor é fiel eternamente! – R.
Evangelho: Lucas 12,13-21
Aleluia, aleluia, aleluia.
Felizes os humildes de espírito, / porque deles é o Reino dos Céus (Mt 5,3). – R.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas – Naquele tempo, 13alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. 14Jesus respondeu: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?” 15E disse-lhes: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens”. 16E contou-lhes uma parábola: “A terra de um homem rico deu uma grande colheita. 17Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. 18Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. 19Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!’ 20Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?’ 21Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”. – Palavra da salvação.
As palavras dos Papas
A plenitude da nossa existência não depende do que acumulamos nem do que possuímos, como ouvimos no Evangelho (cf. Lc 12, 13-21). Em vez disso, está ligada ao que sabemos acolher e partilhar com alegria (cf. Mt 10, 8-10; Jo 6, 1-13). Comprar, acumular, consumir não basta. Necessitamos levantar os olhos, olhar para cima, para as «coisas do alto» (Cl 3, 2), para perceber que, entre as realidades do mundo, tudo tem sentido apenas na medida em que serve para nos unir a Deus e aos irmãos na caridade, fazendo crescer em nós «sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência» (Cl 3, 12), de perdão (cf. ibid., v. 13), de paz (cf. Jo 14, 27), como os de Cristo (cf. Fl 2, 5). E neste horizonte compreenderemos cada vez melhor o que significa «a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (cf. Rm 5, 5). (Papa Leão XIV, Homilia de 3 de agosto de 2025)
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Meditação
O Estado e os governantes não são deuses
Neste 29º Domingo do Tempo Comum, a Igreja proclama o Evangelho de São Mateus, capítulo 22, versículos de 15 a 21, no qual contemplamos Nosso Senhor diante de uma armadilha preparada pelos fariseus e pelos partidários de Herodes. O episódio acontece em Jerusalém, durante a última semana de sua vida terrena, após sua entrada triunfal na cidade.
Embora representassem facções de interesses opostos, fariseus e herodianos uniram-se para colocar Jesus à prova. Os primeiros consideravam os romanos invasores e viam qualquer colaboração com o Império como uma traição à Aliança de Israel com Deus. Os segundos, por sua vez, apoiavam o domínio romano, uma vez que Herodes exercia seu governo como rei vassalo, subordinado à autoridade imperial. Assim, perguntaram a Jesus se era lícito pagar imposto a César, esperando comprometê-lo e prejudicá-lo com qualquer que fosse sua resposta. Se aprovasse o pagamento, seria acusado pelos fariseus de colaborar com a opressão romana; se o condenasse, os herodianos poderiam denunciá-lo como revolucionário e inimigo de César.
Curiosamente, essas duas acusações apareceriam, de algum modo, no processo que conduziu Cristo à morte. Diante das autoridades judaicas, na casa de Caifás, Jesus seria condenado por declarar-se Filho de Deus; perante Pilatos, porém, seus acusadores recorreriam a uma denúncia de natureza política, afirmando que Ele se opunha ao pagamento de impostos a César.
Entretanto, ao pedir que lhe apresentassem uma moeda e perguntar de quem eram a imagem e a inscrição nela gravadas, Nosso Senhor desarmou seus adversários com uma resposta que acabou se tornando um dos fundamentos da civilização ocidental: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21).
Com essas palavras, Ele estabeleceu uma distinção fundamental entre a autoridade política e o poder divino, demonstrando que o poder temporal, por mais elevado que seja, não pode equiparar-se ao de Deus. Embora essa verdade nos pareça evidente, não o era no contexto do Império Romano, em que os imperadores recebiam honras divinas e os súditos eram obrigados a prestar-lhes culto e oferecer sacrifícios. Assim, ao distinguir aquilo que pertence ao Estado daquilo que pertence a Deus, Jesus revela que a consciência humana não pode submeter-se totalmente a nenhuma autoridade terrena.
Nesse sentido, devemos compreender em que consiste a verdadeira liberdade de consciência. Para o cristão, ela não significa possuir autonomia para determinar o bem e o mal segundo a própria vontade, mas estar livre de imposições humanas contrárias à lei divina, a fim de obedecer a Deus. Afinal, não cabe ao homem estabelecer o que é moralmente certo ou errado, pois isso equivaleria a repetir a pretensão de nossos primeiros pais no Paraíso, ao quererem tomar para si uma autoridade que pertence exclusivamente ao Criador.
Nossa consciência, portanto, deve ser educada na docilidade e na obediência à vontade divina, reconhecendo que Deus possui o primado sobre ela. É essa verdade que os Apóstolos proclamam ao responderem às autoridades que lhes ordenavam agir contra a vontade do Senhor: “É preciso obedecer antes a Deus que aos homens” (At 5, 29). Eis o fundamento da liberdade cristã: o direito de obedecer a Deus sem que qualquer poder político usurpe o lugar que somente a Ele pertence.
Essa compreensão, aparentemente simples, exerceu profunda influência sobre a história do Ocidente, particularmente por meio do testemunho dos primeiros mártires cristãos. Diante de um Império que pretendia exercer autoridade sobre todos os aspectos da existência humana, inclusive a religião e a consciência, os mártires recusaram-se a reconhecer no Estado um poder absoluto, preferindo entregar a própria vida a prestar culto ao imperador. Assim, testemunharam que a autoridade política possui limites e não pode exigir aquilo que pertence exclusivamente a Deus.
Desse modo, o cristianismo, inicialmente perseguido pelo poder imperial, contribuiu decisivamente para consolidar na civilização ocidental a convicção de que o Estado não é uma realidade divina e de que a consciência humana não lhe pertence. Sua missão é legítima e necessária, mas não ilimitada.
Em contrapartida, observamos uma concepção distinta na tradição islâmica, especialmente na ideia de jihad — entendida como guerra santa destinada à instauração de uma ordem política religiosa. Vale recordar que Maomé foi também um líder político e militar, e que o ano de 622, marco inicial do calendário islâmico, corresponde ao período em que sua liderança adquiriu uma dimensão política. Dessa forma, enquanto os mártires cristãos entregaram a própria vida para afirmar a liberdade da consciência diante do poder estatal, o “martírio” associado à guerra santa islâmica, nessa perspectiva, está vinculado à expansão de uma autoridade político-religiosa. Por isso, o Estado não pode avocar para si a autoridade divina. Afinal, quando uma sociedade deixa de reconhecer a autoridade de Deus sobre a consciência humana, abre caminho para que o poder político ocupe progressivamente esse lugar, assumindo pretensões cada vez mais totalitárias.
Nesse contexto, recordemos a denúncia feita pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, na homilia que antecedeu o conclave de sua eleição: a chamada ditadura do relativismo. Segundo ele, quando se abandona a existência de uma verdade objetiva e afirma-se que o próprio homem pode determinar o bem e o mal, os princípios morais deixam de ser reconhecidos como realidades que precedem a vontade humana. Consequentemente, aqueles que detêm o poder passam a reivindicar para si a autoridade de estabelecer o que deve ser considerado verdadeiro, justo ou aceitável.
O relativismo, portanto, pode converter-se em instrumento de dominação, porque, se não existe uma ordem moral objetiva à qual todos devam obedecer, a vontade dos mais poderosos tende a apresentar-se como medida de todas as coisas. O mundo passa a ser tratado como uma espécie de “massa de modelar”, sujeita aos interesses daqueles que pretendem ocupar o lugar de Deus, e quem se opõe a essa pretensão torna-se um obstáculo a ser eliminado.
Diante dessa situação, é importante destacar a missão singular da Igreja Católica, a única instituição que, conforme temos visto, permanece firme na defesa da lei natural inscrita na própria Criação, opondo-se às pretensões totalitárias daqueles que desejam exercer um poder absoluto sobre a sociedade. Ao proclamar que o universo foi criado por Deus segundo uma ordem que devemos reconhecer e respeitar, a Igreja recorda aos governantes que sua autoridade possui limites e que existe uma lei superior à vontade humana, à qual todos, sem exceção, devem obedecer.
Um exemplo fundamental dessa verdade encontra-se na instituição da família. Deus criou o homem e a mulher, estabelecendo entre eles uma união ordenada à constituição da família, à fidelidade conjugal e à geração e educação dos filhos. Trata-se de uma realidade inscrita na natureza humana, e não de uma construção que possa ser arbitrariamente modificada conforme as exigências de cada época.
O próprio Cristo reafirma esse princípio ao ensinar que a permissão do divórcio concedida por Moisés decorria da dureza do coração humano, mas que, desde o princípio, não era assim. Ao remeter seus ouvintes à origem da Criação, Jesus recorda que existe uma ordem estabelecida por Deus, anterior às disposições humanas, à qual devemos conformar nossa vida.
Logo, a Igreja não pode renunciar ao Evangelho da família sem comprometer sua missão de testemunhar a verdade. Se aceitasse que a natureza humana e a instituição familiar fossem redefinidas segundo os interesses do mundo moderno, acabaria por submeter-se àqueles que pretendem exercer um poder absoluto sobre a sociedade. E o perigo não consiste apenas na transformação de determinados costumes, mas na própria negação de uma lei superior à vontade dos governantes.
A convicção de que a autoridade dos poderosos não é ilimitada e de que nenhum homem possui o direito de colocar-se no lugar de Deus — transmitida ao longo de dois mil anos de cristianismo — constitui uma das grandes contribuições da Igreja para a liberdade humana diante dos poderes opressores. Afinal, se o mundo possui uma ordem natural estabelecida pelo Criador, nenhuma autoridade terrena pode dispor arbitrariamente daquilo que está submetido à lei divina.
Infelizmente, essa verdade vem sendo enfraquecida por discursos que, sob a aparência de compaixão e misericórdia, procuram convencer os cristãos a abandonar princípios fundamentais da fé. Apresenta-se a fidelidade à lei natural como uma forma de opressão, enquanto a renúncia à verdade é anunciada como expressão de misericórdia.
Todavia, não existe verdadeira misericórdia em silenciar a Igreja e entregar aos poderosos a autoridade de redefinir o bem e o mal. Se os cristãos deixarem de defender a ordem estabelecida por Deus, desaparecerá deste mundo a única resistência fundamental às pretensões totalitárias daqueles que desejam submeter todas as dimensões da vida humana ao domínio do Estado.
Diante disso, somos chamados a permanecer firmes na verdade revelada, sem permitir que as pressões dos poderosos deste mundo nos façam renunciar à obediência devida ao Criador.
Portanto, rezemos pelo Brasil e pelo mundo inteiro, para que a consciência dos homens seja novamente iluminada pela lei divina e para que jamais se atribua ao poder humano uma autoridade que não lhe pertence, pois somente Deus é Senhor de nossa consciência e de nossa vida. Precisamos, pois, dar a César o que é de César, e, acima de tudo, a Deus o que é de Deus.
Padre Paulo Ricardo
