
DIA 9 – SEGUNDA-FEIRA
3ª SEMANA DA QUARESMA
(roxo – ofício do dia)
Minha alma desfalece de saudades e anseia pelos átrios do Senhor! Meu coração e minha carne rejubilam e exultam de alegria no Deus vivo! (Sl 83,3)
O amor de Deus é universal; não se limita a um povo ou a uma comunidade, mas alcança toda a humanidade. Sedentos da presença do Senhor, celebremos os sagrados mistérios.
Primeira Leitura: 2 Reis 5,1-15
Leitura do segundo livro dos Reis – Naqueles dias, 1Naamã, general do exército do rei da Síria, era um homem muito estimado e considerado pelo seu senhor, pois foi por meio dele que o Senhor concedeu a vitória aos arameus. Mas esse homem, valente guerreiro, era leproso. 2Ora, um bando de arameus que tinha saído da Síria tinha levado cativa uma moça do país de Israel. Ela ficou ao serviço da mulher de Naamã. 3Disse ela à sua senhora: “Ah, se meu senhor se apresentasse ao profeta que reside em Samaria, sem dúvida ele o livraria da lepra de que padece!” 4Naamã foi então informar o seu senhor: “Uma moça do país de Israel disse isto e isto”. 5Disse-lhe o rei de Aram: “Vai, que eu enviarei uma carta ao rei de Israel”. Naamã partiu, levando consigo dez talentos de prata, seis mil siclos de ouro e dez mudas de roupa. 6E entregou ao rei de Israel a carta, que dizia: “Quando receberes esta carta, saberás que eu te enviei Naamã, meu servo, para que o cures de sua lepra”. 7O rei de Israel, tendo lido a carta, rasgou suas vestes e disse: “Sou Deus, porventura, que possa dar a morte e a vida, para que este me mande um homem para curá-lo da lepra? Vê-se bem que ele busca pretexto contra mim”. 8Quando Eliseu, o homem de Deus, soube que o rei de Israel havia rasgado as vestes, mandou dizer-lhe: “Por que rasgaste tuas vestes? Que ele venha a mim, para que saiba que há um profeta em Israel”. 9Então Naamã chegou com seus cavalos e carros e parou à porta da casa de Eliseu. 10Eliseu mandou um mensageiro para lhe dizer: “Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás limpo”. 11Naamã, irritado, foi-se embora, dizendo: “Eu pensava que ele sairia para me receber e que, de pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, e que tocaria com sua mão o lugar da lepra e me curaria. 12Será que os rios de Damasco, o Abana e o Farfar, não são melhores do que todas as águas de Israel, para eu me banhar nelas e ficar limpo?” Deu meia-volta e partiu indignado. 13Mas seus servos aproximaram-se dele e disseram-lhe: “Senhor, se o profeta te mandasse fazer uma coisa difícil, não a terias feito? Quanto mais agora que ele te disse: ‘Lava-te e ficarás limpo’”. 14Então ele desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme o homem de Deus tinha mandado, e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado. 15Em seguida, voltou com toda a sua comitiva para junto do homem de Deus. Ao chegar, apresentou-se diante dele e disse: “Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda a terra, senão o que há em Israel!” – Palavra do Senhor.
Salmo Responsorial: 41(42)
Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: / e quando verei a face de Deus?
1. Assim como a corça suspira / pelas águas correntes, / suspira igualmente minha alma / por vós, ó meu Deus! – R.
2. A minha alma tem sede de Deus / e deseja o Deus vivo. / Quando terei a alegria de ver / a face de Deus? – R.
3. Enviai vossa luz, vossa verdade: / elas serão o meu guia; / que me levem ao vosso monte santo, / até a vossa morada! – R.
4. Então irei aos altares do Senhor, / Deus da minha alegria. / Vosso louvor cantarei, ao som da harpa, / meu Senhor e meu Deus! – R.
Evangelho: Lucas 4,24-30
Jesus Cristo, sois bendito, / sois o Ungido de Deus Pai!
No Senhor ponho a minha esperança, / espero em sua palavra. / Pois no Senhor se encontra toda graça / e copiosa redenção (Sl 129,5.7). – R.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas – Jesus, vindo a Nazaré, disse ao povo na sinagoga: 24“Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. 25De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. 26No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia. 27E no tempo do profeta Eliseu havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio”. 28Quando ouviram essas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. 29Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até o alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. 30Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho. – Palavra da salvação.
As palavras dos Papas
Depois de Jesus, com quase trinta anos, ter deixado Nazaré e já há algum tempo pregava e fazia curas noutras partes, regressou uma vez à sua terra e pôs-se a ensinar na sinagoga. Os seus concidadãos «ficaram admirados» pela sua sabedoria e, conhecendo-o como o «filho de Maria», o «carpinteiro» que viveu no meio deles, em vez de o receber com fé ficaram escandalizados com Ele (cf. Mc 6, 2-3). Este fato é compreensível, porque a familiaridade a nível humano torna difícil ir além e abrir-se à dimensão divina. Eles têm dificuldade de acreditar que este Filho de um carpinteiro seja Filho de Deus. O próprio Jesus dá como exemplo a experiência dos profetas de Israel, que precisamente na sua pátria tinham sido objeto de desprezo, e identifica-se com eles. Devido a este fechamento espiritual, Jesus não pôde realizar em Nazaré «milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos» (Mc 6, 5). Com efeito, os milagres de Cristo não são uma exibição de poder, mas sinais de amor de Deus, que se realiza onde encontra a fé do homem na reciprocidade. (Papa Bento XVI, Angelus de 8 de julho de 2012)
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Meditação
Configurar-se a Cristo, não a Satanás
No Evangelho de hoje, Jesus é rejeitado por seus conterrâneos em Nazaré. Para compreendermos melhor o significado deste Evangelho, coloquemo-lo num contexto mais amplo. Depois de ser batizado no Jordão e tentado no deserto, Jesus retornou à sua cidade natal e, na sinagoga de Nazaré, tomou o livro do profeta Isaías e proclamou que a profecia messiânica se cumpria n’Ele. O povo, porém, escandalizou-se: “Não é este o filho do carpinteiro, o filho de José? Como pode ser o Messias?”. Por isso, procuravam levá-lo até o alto da montanha para precipitá-lo.
São Beda, o Venerável, faz um paralelo interessante dizendo que aquilo que o povo de Nazaré fez com Jesus, na realidade, é semelhante ao que Satanás fez com Ele. Por quê? Primeiro, por causa da inveja de ambos; segundo, porque, assim como o demônio levou Jesus até o topo do templo para pedir que Ele se jogasse de lá de cima, os nazarenos levaram-no para uma alta montanha para também jogá-lo de lá.
O que significa, então, esse mecanismo de “configuração satânica”? Ou seja, como é que os seres humanos conseguem ser semelhantes a Satanás? Primeiro, por meio da inveja. Sim, pois a inveja, isto é, a tristeza pelo bem do outro, foi o pecado fundamental do demônio, que não suportou a grande vocação do ser humano de poder contemplar a Deus face a face e, por isso, quis conduzir o homem à morte, não apenas física, mas eterna.
Essa dinâmica repete-se ao longo da história da salvação: em Caim que mata Abel, nos irmãos de José que o vendem por inveja e, agora, no próprio Cristo. O que começa em Nazaré, então, consuma-se mais tarde, quando Ele não é precipitado da montanha, mas elevado sobre ela na Cruz — para a nossa salvação.
Nesta Quaresma, somos chamados a nos configurar a Cristo, que, como nos diz a Carta aos Filipenses, “sendo igual a Deus não se apegou à sua condição divina, mas se esvaziou, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens” (cf. Fl 2, 6-7). Eis o contrário da inveja: a generosidade e o amor de quem se doa e se rebaixa.
Que, nesta Quaresma, imitemos o coração de Jesus, para que a nossa conversão não nos leve a nos entristecermos com a graça e o bem de nossos irmãos, mas a alegrar-nos com eles e a doar-nos como Nosso Senhor, para que eles recebam ainda mais graças.
Padre Paulo Ricardo
