
DIA 23 – SEXTA-FEIRA
29ª SEMANA DO TEMPO COMUM*
(verde – ofício do dia)
Eu vos chamo, ó meu Deus, porque me ouvis, inclinai o vosso ouvido e escutai-me! Protegei-me qual dos olhos a pupila e abrigai-me à sombra de vossas asas (SI 16,6.8).
A humildade e a caridade são virtudes indispensáveis para conservar a unidade do Espírito, manifestada na comunhão da Igreja. Reunidos para celebrar a Eucaristia, abramos nosso coração ao Espírito Santo, cuja sabedoria nos permite discernir os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho.
Primeira Leitura: Efésios 4,1-6
Leitura da carta de São Paulo aos Efésios – Irmãos, 1eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes: 2com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. 3Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. 4Há um só corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança à qual fostes chamados. 5Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, 6um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos. – Palavra do Senhor.
Salmo Responsorial: 23(24)
É assim a geração dos que buscam vossa face, / ó Senhor, Deus de Israel.
1. Ao Senhor pertence a terra e o que ela encerra, / o mundo inteiro com os seres que o povoam; / porque ele a tornou firme sobre os mares / e, sobre as águas, a mantém inabalável. – R.
2. “Quem subirá até o monte do Senhor, / quem ficará em sua santa habitação?” / “Quem tem mãos puras e inocente coração, / quem não dirige sua mente para o crime. – R.
3. Sobre este desce a bênção do Senhor / e a recompensa de seu Deus e salvador.” / “É assim a geração dos que o procuram / e do Deus de Israel buscam a face.” – R.
Evangelho: Lucas 12,54-59
Aleluia, aleluia, aleluia.
Graças te dou, ó Pai, / Senhor do céu e da terra, / pois revelaste os mistérios do teu Reino aos pequeninos, / escondendo-os aos doutores! (Mt 11,25) – R.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas – Naquele tempo, 54Jesus dizia às multidões: “Quando vedes uma nuvem vinda do ocidente, logo dizeis que vem chuva. E assim acontece. 55Quando sentis soprar o vento do sul, logo dizeis que vai fazer calor. E assim acontece. 56Hipócritas! Vós sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu. Como é que não sabeis interpretar o tempo presente? 57Por que não julgais por vós mesmos o que é justo? 58Quando, pois, tu vais com o teu adversário apresentar-te diante do magistrado, procura resolver o caso com ele enquanto estais a caminho. Senão ele te levará ao juiz, o juiz te entregará ao guarda e o guarda te jogará na cadeia. 59Eu te digo: daí tu não sairás, enquanto não pagares o último centavo”. – Palavra da salvação.
As palavras dos Papas
Conhecer os sinais dos tempos. Os tempos mudam. É próprio da sabedoria cristã conhecer estas mudanças, os diversos tempos e os sinais dos tempos. O que significa uma coisa e o que significa outra. E fazer isso sem medo, com liberdade. Isto é um trabalho que normalmente não fazemos: conformamo-nos, tranquilizamo-nos com “disseram-me; ouvi dizer; as pessoas dizem; li…”. E assim estamos tranquilos. Mas, qual é a verdade? Qual é a mensagem que o Senhor me quer transmitir com aquele sinal dos tempos? Para compreender os sinais dos tempos, antes de tudo é necessário o silêncio: fazer silêncio e olhar, observar. E depois refletir dentro de nós. Um exemplo: por que há tantas guerras agora? Por que aconteceu isto? E rezar: silêncio, reflexão e oração. Só assim poderemos compreender os sinais dos tempos, o que Jesus nos quer dizer. Os tempos mudam e nós cristãos devemos mudar continuamente. Devemos mudar firmes na fé em Jesus Cristo, firmes na verdade do Evangelho, mas a nossa atitude deve mover-se continuamente segundo os sinais dos tempos. (Papa Francisco, Homilia na Capela da Casa Santa Marta de 23 de outubro de 2015)
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Meditação
Tempo de colher a misericórdia
O Evangelho de hoje nos convida a refletir sobre a interpretação dos sinais dos tempos. Para compreendermos adequadamente o ensinamento de Jesus, convém começar distinguindo os dois sentidos da palavra “tempo” — o tempo cronológico e o tempo propício —, que, em português, podem ser expressos pelo mesmo termo.
Podemos compreender essa diferença a partir de um exemplo simples. Aqui no Mato Grosso, em determinada época do ano, dizemos que chegou o “tempo da manga”. Evidentemente, não se trata de um período diferente quanto à sua duração: os dias continuam tendo vinte e quatro horas e os meses transcorrem como todos os outros. O que distingue esse tempo é a sua qualidade, pois corresponde ao período próprio para o amadurecimento e a colheita dos frutos. Existe, portanto, um momento oportuno, caracterizado não simplesmente pela passagem dos dias, mas por aquilo que nele pode acontecer e ser colhido.
É desse tipo de tempo que Jesus está falando. A comparação utilizada por Ele é agrária: da mesma forma que aqueles que trabalham no campo sabem reconhecer os sinais atmosféricos e discernir o momento adequado para cada atividade, também nós precisamos saber reconhecer o tempo em que estamos vivendo.
Em grego, esse tempo oportuno é chamado de kairós. Não se trata simplesmente do tempo cronológico, no qual um dia sucede ao outro, mas de um período particularmente favorável, no qual algo pode ser colhido. E o que somos chamados a colher agora? É o tempo de colher a misericórdia de Deus, pois haverá também o tempo do Juízo.
Jesus nos recorda que estamos a caminho do Juiz. Vivemos neste momento o tempo da misericórdia, no qual podemos nos reconciliar com Deus, arrepender-nos e mudar de vida. Chegará, porém, o momento em que soará a trombeta e terá início o tempo do Juízo. Falamos muito da misericórdia divina — e é importante que o façamos —, mas precisamos compreender que o tempo para acolhê-la é enquanto estamos nesta vida.
Santo Ambrósio de Milão fez uma reflexão que nos ajuda a compreender essa verdade. Ele se perguntou por que Deus, depois de criar os anjos e ver uma parte deles cair e transformar-se em demônios, decidiu criar o ser humano, sabendo que a humanidade cairia pelo pecado de Adão e Eva.
Segundo Santo Ambrósio, Deus quis criar o homem porque desejava uma criatura a quem pudesse perdoar. Isso se explica pela diferença entre a condição dos anjos e a nossa. Quando os anjos tomam uma decisão, sua escolha é irrevogável: eles não voltam atrás. Mesmo que Deus oferecesse o perdão a Satanás, ele não o desejaria. Já os seres humanos, enquanto permanecem nesta vida, ainda podem voltar atrás, arrepender-se e acolher a misericórdia de Deus. Contudo, depois da morte, essa possibilidade cessa: chegamos a uma condição em que nossa escolha já não pode ser modificada.
Por isso, é fundamental recordar que estamos caminhando em direção ao Juiz e vivemos o kairós, o tempo oportuno para colher a misericórdia. Afinal, assim como chega o momento em que as mangueiras ficam vazias e já não há frutos para colher, chegará o momento em que o kairós da misericórdia terá passado.
Aproveitemos, portanto, o tempo que nos é concedido enquanto caminhamos nesta vida, acolhendo a misericórdia de Deus, pedindo perdão pelos nossos pecados e convertendo-nos antes do tempo do Juízo.
Padre Paulo Ricardo
