
DIA 23 – QUINTA-FEIRA
3ª SEMANA DA PÁSCOA
(branco – ofício do dia)
Cantemos ao Senhor, pois fez brilhar a sua glória. O Senhor é minha força e meu canto, ele foi para mim a salvação, aleluia (Ex 15,1s).
O mistério do santo batismo deve gerar em nós a alegria de uma vida renovada no Espírito Santo. Nesta Eucaristia, ao ouvir e compreender a Palavra de Deus, disponhamo-nos a renovar nossa conduta, unindo-a a Cristo ressuscitado, “pão vivo que desceu do céu”.
Primeira Leitura: Atos 8,26-40
Leitura dos Atos dos Apóstolos – Naqueles dias, 26um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: “Prepara-te e vai para o sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza. O caminho é deserto”. Filipe levantou-se e foi. 27Nisso apareceu um eunuco etíope, ministro de Candace, rainha da Etiópia, e administrador-geral do seu tesouro, que tinha ido em peregrinação a Jerusalém. 28Ele estava voltando para casa e vinha sentado no seu carro, lendo o profeta Isaías. 29Então o Espírito disse a Filipe: “Aproxima-te desse carro e acompanha-o”. 30Filipe correu, ouviu o eunuco ler o profeta Isaías e perguntou: “Tu compreendes o que estás lendo?” 31O eunuco respondeu: “Como posso, se ninguém mo explica?” Então convidou Filipe a subir e a sentar-se junto a ele. 32A passagem da Escritura que o eunuco estava lendo era esta: “Ele foi levado como ovelha ao matadouro; e qual um cordeiro diante do seu tosquiador, ele emudeceu e não abriu a boca. 33Eles o humilharam e lhe negaram justiça; e seus descendentes, quem os poderá enumerar? Pois sua vida foi arrancada da terra”. 34E o eunuco disse a Filipe: “Peço que me expliques de quem o profeta está dizendo isso. Ele fala de si mesmo ou se refere a algum outro?” 35Então Filipe começou a falar e, partindo dessa passagem da Escritura, anunciou Jesus ao eunuco. 36Eles prosseguiram o caminho e chegaram a um lugar onde havia água. Então o eunuco disse a Filipe: “Aqui temos água. O que impede que eu seja batizado?”(37) 38O eunuco mandou parar o carro. Os dois desceram para a água, e Filipe batizou o eunuco. 39Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe. O eunuco não o viu mais e prosseguiu sua viagem, cheio de alegria. 40Filipe foi parar em Azoto. E, passando adiante, evangelizava todas as cidades até chegar a Cesareia. – Palavra do Senhor.
Salmo Responsorial: 65(66)
Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira.
1. Nações, glorificai ao nosso Deus, / anunciai em alta voz o seu louvor! / É ele quem dá vida à nossa vida / e não permite que vacilem nossos pés. – R.
2. Todos vós que a Deus temeis, vinde escutar: / vou contar-vos todo bem que ele me fez! / Quando a ele o meu grito se elevou, / já havia gratidão em minha boca! – R.
3. Bendito seja o Senhor Deus, que me escutou, † não rejeitou minha oração e meu clamor / nem afastou longe de mim o seu amor! – R.
Evangelho: João 6,44-51
Aleluia, aleluia, aleluia.
Eu sou o pão vivo descido do céu, / quem deste pão come sempre há de viver (Jo 6,51). – R.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João – Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 44“Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrai. E eu o ressuscitarei no último dia. 45Está escrito nos profetas: ‘Todos serão discípulos de Deus’. Ora, todo aquele que escutou o Pai e por ele foi instruído vem a mim. 46Não que alguém já tenha visto o Pai. Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai. 47Em verdade, em verdade vos digo, quem crê possui a vida eterna. 48Eu sou o pão da vida. 49Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram. 50Eis aqui o pão que desce do céu: quem dele comer nunca morrerá. 51Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne, dada para a vida do mundo”. – Palavra da salvação.
As palavras dos Papas
O pão do céu é um dom que supera qualquer expectativa. Aqueles que não compreendem o estilo de Jesus permanecem desconfiados: parece impossível, até desumano, comer a carne de outro (cf. v. 54). A carne e o sangue, pelo contrário, são a humanidade do Salvador, a sua própria vida oferecida como alimento para a nossa. (…) O Cristo, verdadeiro homem, sabe bem que é preciso comer para viver. Mas sabe também que isto não é suficiente. Depois de ter multiplicado o pão terreno (cf. Jo 6, 1-14), prepara um dom ainda maior: Ele mesmo se torna verdadeira comida e verdadeira bebida (cf. v. 55). (…) O pão celeste, que vem do Pai, é precisamente o Filho feito carne para nós. Este alimento é mais do que necessário para nós, porque sacia a fome de esperança, a fome de verdade, a fome de salvação que todos nós sentimos não no estômago, mas no coração. A Eucaristia é necessária, para todos. Jesus cuida da maior necessidade: salva-nos, alimentando a nossa vida com a sua, e isto para sempre. E, graças a Ele, podemos viver em comunhão com Deus e uns com os outros. O pão vivo e verdadeiro não é, portanto, algo mágico, não, não é algo que, de repente, resolve todos os problemas, mas é o próprio Corpo de Cristo, que dá esperança aos pobres e vence a arrogância daqueles que se empanturram em detrimento deles. (Papa Francisco, Angelus de 18 de agosto de 2024)
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Meditação
A Eucaristia e o sacrifício da Cruz
Continuando a leitura do Evangelho do Pão da Vida, no capítulo 6 de São João, vemos o discurso de Jesus se tornando mais explicitamente eucarístico. Até este momento, Ele havia nos falado sobre crer n’Ele e buscá-lo, a fim de alimentarmos a nossa alma, pois a virtude da fé nos une a Jesus e, consequentemente, faz-nos participar da vida eterna.
É importante compreender que esse “crer” em Jesus é algo muito concreto: significa obedecer aos seus Mandamentos, arrepender-se dos pecados, buscar a Confissão e receber a Eucaristia e os demais sacramentos. Todavia, também é necessário enxergar que, nesse mesmo “crer”, há a ação de Deus em nós, e é justamente isso que o Evangelho de hoje esclarece: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrai” (Jo 6, 44).
Portanto, se estamos ouvindo a Palavra de Jesus, cumprindo os Mandamentos e buscando a Confissão, ali existe uma graça de Deus operando em nós e concedendo-nos a oportunidade de buscá-lo. É ela quem atrai as nossas almas, conduzindo-as até Jesus, o Pão da Vida, para que nos tornemos seus fiéis discípulos.
Nesta passagem do Evangelho, então, ocorre uma transição: ao falar de si como o Pão da Vida — no sentido do crer, da Palavra, da conversão e da graça — Jesus começa a falar mais claramente da Eucaristia, já apontando para o seu santo sacrifício na Cruz.
No último versículo do Evangelho de hoje, Ele declara: “Eu sou o Pão vivo descido do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente”. Até aqui, vemos uma ideia que Ele já havia repetido. Mas, em seguida, vem algo novo e mais profundo: “E o Pão que Eu darei é a minha Carne dada para a vida do mundo” (Jo 6, 51).
Essa linguagem marca o início de uma ruptura e de um escândalo, pois Jesus começa a falar de modo direto sobre a Eucaristia. Ele diz, no original grego: “Ho artos de hon egō dōsō ” (ὁ ἄρτος δὲ ὃν ἐγὼ δώσω), ou seja, “o Pão que eu darei”, “hē sarx mou estin” (ἡ σάρξ μού ἐστιν), “é a minha Carne”. Vale notar que, na nossa linguagem habitual, ao falarmos da Eucaristia utilizamos o termo “corpo” (soma), mas Jesus utiliza uma expressão mais forte e mais concreta, com uma clara referência ao sacrifício da Cruz: carne (sarx).
Ele prossegue: “hyper tēs tou kosmou zōēs” (ὑπὲρ τῆς τοῦ κόσμου ζωῆς), isto é, “para a vida do mundo”. O termo hyper aparece frequentemente no contexto da Paixão, significando “por”, “em favor de”. Desse modo, como dizemos no Credo, “propter nos homines” — “por nós homens”, Jesus afirma que sua Carne é entregue pela vida do mundo em um verdadeiro sacrifício de amor.
Começa, então, a se revelar o grande mistério da Redenção na Cruz e da Eucaristia, que está intimamente ligada a esse mistério. A Eucaristia é a forma sacramental pela qual esse sacrifício é tornado presente e pela qual recebemos, de modo real, a presença de Cristo.
É impressionante percebermos que Jesus faz esse discurso do Pão da Vida cerca de um ano antes de sua Páscoa definitiva. Já ali, Ele anunciava claramente a finalidade de sua missão: dar a sua Carne pela vida do mundo. E este mundo, desgraçadamente, muitas vezes o rejeita e não o quer, mas também há aqueles que foram confiados a Ele pelo Pai, aqueles que o Pai atraiu.
Padre Paulo Ricardo
